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Laguna, que neste mês comemora 350 anos da fundação, lembra ainda o mês de julho de 1839. Naquele mês e ano, Laguna viveu um dos momentos mais extraordinários de sua história. Em plena Guerra dos Farrapos, a então vila catarinense foi conquistada pelas tropas republicanas e transformada na capital de um novo país: a República Juliana, oficialmente denominada Estado Catarinense livre e independente do Brasil Império.
A experiência durou apenas quatro meses, mas deixou marcas profundas na história de Santa Catarina e do Brasil. Foi nesse período que Giuseppe Garibaldi conheceu Ana Maria de Jesus Ribeiro, a Anita Garibaldi, e iniciou uma parceria que atravessaria continentes e faria dos dois personagens símbolos das lutas pela liberdade.

A Guerra dos Farrapos chegou ao litoral catarinense
A Revolução Farroupilha começou em 20 de setembro de 1835, no Rio Grande do Sul, como uma reação às políticas econômicas do Império. Os líderes farroupilhas defendiam maior autonomia para as províncias e um modelo republicano de governo.
Em 1836, proclamaram a República Rio-Grandense, com capital em Piratini. O novo Estado, porém, enfrentava um problema estratégico: havia perdido o acesso ao mar após a retomada de Porto Alegre pelas forças imperiais.
Sem um porto, ficava comprometido o abastecimento da república e o contato com embarcações estrangeiras.
A solução estava ao norte. Laguna possuía um porto ativo, movimentava o comércio de cabotagem e ocupava posição estratégica no litoral catarinense.
A ousada travessia que mudou a história
Conquistar Laguna parecia improvável.
A Marinha Imperial bloqueava a saída das embarcações farroupilhas pelos rios do Rio Grande do Sul.
Foi então que Giuseppe Garibaldi protagonizou uma das operações militares mais surpreendentes do período.
Ao lado do norte-americano John Griggs, conhecido como João Grandão, transportou os lanchões de guerra Seival e Rio Pardo sobre carretas improvisadas, puxadas por dezenas de bois durante aproximadamente 100 quilômetros até a barra do rio Tramandaí.
A partir dali, as embarcações seguiram pelo Oceano Atlântico rumo ao litoral catarinense.
Durante a viagem, um terceiro navio, o Farroupilha, naufragou próximo à atual região de Araranguá. Garibaldi sobreviveu e prosseguiu a missão.
A operação ficou conhecida como uma das maiores façanhas logísticas da Revolução Farroupilha.
O ataque que surpreendeu o Império
A ofensiva contra Laguna foi cuidadosamente planejada.
Por terra, as tropas comandadas por David Canabarro avançaram em direção à vila.
Pelo mar, Garibaldi evitou a entrada principal, fortemente vigiada pelas forças imperiais.
Em vez disso, conduziu suas embarcações por uma rota considerada improvável: entrou pela Lagoa de Garopaba do Sul, cruzou a Barra do Camacho e navegou pelo rio Tubarão, alcançando Laguna pelos fundos da cidade.
Enquanto os imperiais aguardavam um ataque frontal pela barra principal, foram surpreendidos pela retaguarda.
Em 22 de julho de 1839, Laguna caiu praticamente sem resistência organizada.
As tropas imperiais retiraram-se em direção ao norte e Garibaldi capturou 14 embarcações mercantes ancoradas no porto.
Pela primeira vez desde o início da revolução, os farroupilhas conquistavam um porto marítimo.
Nascia a República Juliana
Sete dias depois, em 29 de julho de 1839, a Câmara Municipal de Laguna, presidida por Vicente Francisco de Oliveira, proclamou oficialmente o Estado Catarinense Livre e Independente.
A nova república ficou conhecida como República Juliana, referência ao mês de julho, quando ocorreu sua criação.
Naquele momento, Laguna transformou-se na capital de um Estado republicano aliado da República Rio-Grandense.
David Canabarro assumiu o governo provisório.
Em agosto foram realizadas eleições que escolheram o tenente-coronel Joaquim Xavier Neves para a presidência e o padre Vicente Ferreira dos Santos Cordeiro como vice-presidente.
Como Xavier Neves permaneceu impedido de chegar a Laguna devido ao cerco das tropas imperiais em São José, o padre Cordeiro acabou assumindo a chefia do governo.
O jornalista italiano Luigi Rossetti tornou-se secretário de Estado.
Quatro meses de dificuldades
Apesar do entusiasmo inicial, a nova república enfrentou enormes desafios.
O bloqueio naval imposto pelo Império dificultava o abastecimento e praticamente paralisava o comércio.
Produtos básicos, como sal e fumo, tornaram-se escassos.
A administração também enfrentava dificuldades para organizar o governo e manter a ordem pública.
Com o passar das semanas, parte da população passou a demonstrar insatisfação.
Houve registros de saques, conflitos internos e medidas repressivas adotadas pelas forças republicanas.
Em novembro de 1839, moradores da Freguesia de Imaruí rebelaram-se contra o governo farroupilha.
Garibaldi foi enviado para conter o movimento e reprimiu a revolta pela força.
A experiência republicana revelava os desafios de manter um governo surgido em meio à guerra.
A reconquista imperial

O governo imperial reagiu rapidamente.
O marechal Francisco José de Sousa Soares de Andrea foi nomeado presidente da Província de Santa Catarina com a missão de recuperar Laguna.
Em 15 de novembro de 1839, tropas imperiais lançaram uma ofensiva combinada.
Mais de três mil soldados avançaram por terra, enquanto treze embarcações atacavam pelo mar.
A esquadra farroupilha foi destruída e Laguna voltou ao controle do Império.
A República Juliana chegava ao fim exatamente quatro meses após sua criação.
David Canabarro e Giuseppe Garibaldi conseguiram fugir.
Ao lado deles partiu também Ana Maria de Jesus Ribeiro.
A jovem lagunense, que havia conhecido Garibaldi durante a ocupação da cidade, passaria a acompanhá-lo nas campanhas militares no Uruguai e na Itália, tornando-se mundialmente conhecida como Anita Garibaldi, a Heroína dos Dois Mundos.
Um legado que permanece vivo
Embora tenha existido por apenas quatro meses, a República Juliana permanece como um dos episódios mais marcantes da história catarinense.
O movimento não conseguiu expandir a revolução para toda a província nem conquistar Desterro, atual Florianópolis, então sede administrativa de Santa Catarina.
Ainda assim, transformou Laguna em um dos principais cenários da história republicana brasileira.
Hoje, a Praça República Juliana, o Museu Histórico Anita Garibaldi, o Centro Histórico de Laguna e diversos monumentos preservam a memória daquele período.
Todos os anos, em 29 de julho, a cidade relembra o dia em que deixou de ser uma vila do Império para se tornar, ainda que por pouco tempo, a capital de uma república independente.

